SOROCABA / SP - quinta-feira, 23 de novembro de 2017

MUSICA E CÉREBRO

"The brain is not a sausage...it is more like a well tuned musical instrument". R. Llinás.

 

LLinás é um dos mais férreos defensores da "cerebralidade" da mente humana. Por isto, ao comparar o cérebro humano com um instrumento musical, dá uma volta de 180 graus em sua posição, se quisermos ser dramáticos, da qual é difícil desvencilhar-se. Não é somente uma questão metafórica ou de forma. Sua teoria tálamo-cortical da consciência humana se adapta fácil e elasticamente a esta analogia, originando múltiplas possibilidades de modelos.

Rodolfo Llinás, nascido e formado em medicina na Colômbia, é atualmente chefe do Department of Physiology and Neurosciences da Faculdade de Medicina da Universidade de Nova Iorque, Chegou a Buenos Aires para o Congresso Mundial de Neurologia e ministrou uma conferência de alto impacto na Faculdade de Medicina sobre sua teoria favorita, filosofia da mente e outras coisas. Um auditório, composto majoritariamente por estudantes de Ciências Exatas presenciou como o histrionismo deste pesquisador sobreviveu ao "ataque" ataque produzido pelo vetusto projetor de nossa Faculdade e serviu de base para que pudéssemos escutar uma aposta forte e direta nas teorias biológicas da mente e da consciência. Entre este evento e o congresso, perseguimos Llinás para discutir a respeito de tudo isso.

Clique no texto sublinhado para ver explicações de alguns dos termos da entrevista

Veja também: Quem é Rodolfo Llinás, algumas de suas publications selecionadas e o autor da entrevista

 


 

S. Strejilevich. O senhor comparou o funcionamento do cérebro com o de um instrumento musical. Pois bem, os instrumentos musicais evoluíram de acordo com a forma com que foram definidos seus sons e afinações e isto significou muitas vezes mudanças dramáticas na forma de tocá-los e no seu desempenho. Um exemplo clássico é o do cravo – o antecessor do piano - antes e depois do "Cravo Bem Temperado" de Bach. Poderíamos brincar com a idéia de mudanças na configuração da consciência através do processo evolutivo?

R. Llinás: Entendo sua pergunta em dois sentidos, estrutural e funcional. Estruturalmente devemos entender que não se pode pensar que o cérebro humano seja diferente do cérebro dos demais vertebrados. É uma pergunta importante, porque podemos nos indagar qual é a diferença entre o cérebro de um rato e o nosso, e é claro que a diferença é enorme, em tamanho e capacidade. Mas se olharmos a anatomia microscópica de um sistema como o tálamo-cortical (que gera a consciência) a diferença desaparece, são os mesmos tipos de células em ambos casos. Então sabemos que a diferença existe na complexidade dos circuitos, mas não necessariamente na arquitetura geral (tanto as choças como os palácios têm um telhado!). Mas se olhamos a função, a situação é outra. O cérebro, como os instrumentos musicais, tem grandes propriedades emergentes. Lembre-se que nos antigos instrumentos de cordas havia cordas que não se podia tocar, que se chamavam "cordas simpáticas" e que estavam dentro do instrumento. Então, isso é o que eu sugeri que ocorre com a evolução dentro do cérebro. Há um enorme número de "cordas simpáticas" que aumentam a capacidade cerebral e tornam mais complexa a ressonância interna. É essa a riqueza do cérebro humano, já que possivelmente as regiões específicas do cortex cerebral são iguais em um macaco e nos seres humanos, mas as cordas simpáticas não.The cortex de associação, as conexões indiretas, são as que realmente fazem que sejamos diferentes de outros animais. Em particular, a capacidade de imaginar coisas novas (nossas idéias ou imaginações) de pedaços de coisas, ou de propriedades do mundo externo nos permite inventar coisas que não existem. Começamos utilizando ossos de animais como armas e com o mesmo processo chegamos a inventar a televisão ou os satélites espaciais.

S.A.S.: Muito bem, mas estas mesmas características que o senhor assinala dariam uma grande flexibilidade ao cérebro humano quanto ao modo de organizar estas propriedades emergentes. Mas saindo da analogia musical, por exemplo, J. Jaynes em "The origins of consciousness in the breakdown of the bicameral mind" propõe que nossa consciência, antes da cultura grega, estava organizada de tal modo que as pessoas dialogavam verdadeiramente com seus próprias vozes. Poderemos no futuro organizar de maneira diferente nosso instrumento consciente?

R. Llinás: As diferentes políticas, religiões e costumes sociais demonstram que um mesmo cérebro pode ser "afinado" de modos diferentes. Mas a capacidade de afinação é limitada. Nunca poderemos sentir como o faz uma onça, por exemplo. Podemos imaginar um homem que crê ou que pretende ser uma onça, mas pretender não é o mesmo que ser. Poderemos ter outras ideologias, mas continuaremos restritos pela natureza de nosso cérebro e de nosso corpo.

S.A.S.: O senhor mencionou em sua palestra o fato de que a consciência de alguma forma parece resultar de uma interação entre o varredura tálamo-cortical e os estímulos provenientes do ambiente. Se aprofundarmos esta proposta poderiam surgir modelos explicativos da ação de alguns psicofármacos.. Por exemplo, poderíamos dizer que os neurolépticos atuam como filtro ou "portão", impedindo a geração daquelas interações ou ressonâncias que poderiam estar na estrutura de alguns sintomas psicóticos. Que possibilidade o senhor vê nestas analogias?

 

R. Llinás:Definitivamente essa parece ser a realidade. E isso não somente do ponto de vista neuroléptico, onde a função tálamo-cortical pode ser mudada, no sentido de "poder tocar outra música" que esteja de acordo com o mundo externo (alegre com o sol, triste quando chove) e não a música continuamente triste do depressivo ou continuamente alegre do maníaco. Além disso, muda no parkinsoniano ou no indivíduo que tem epilepsia do tipo"petit mal" também chamada ausência epiléptica. Sobre isto sabemos bastante. Nós descobrimos grande parte da biofísica deste tipo de atividade do ponto de vista neuronal.

S.A.S.: E que papel daria à memória como mecanismo formador de consciência?

R. Llinás: : Bom, essa é outra situação. Já não é a evolução do sistema nervoso, mas sim a de um determinado indivíduo. O papel da memória é muito importante mas... não tão importante como se crê. A maioria das coisas importantes que fazemos não depende da memória. Poder ouvir, ver, palpar, sentir alegria e dor, é independente da memória; é uma coisa a priori . Então, para mim, o que faz a memória é modificar esse a priori, que, inclusive, pode-se fazer muito profundamente. Mas não podemos aprender a não reconhecer as diferenças entre o verde e o vermelho. O que se pode fazer, sim, é mudar a sensibilidade (por exemplo, esse alaranjado está demasiado vermelho para pintar uma laranja) ou o significado (vermelho, pare; verde, siga). Somos animais onívoros que caminham sobre duas pernas, o que quer dizer que temos muitos nichos ecológicos do ponto de vista dos lugares onde podemos viver. Portanto, temos que poder adaptar-nos a distintos ambientes e por isso não podemos predizer, de modo genérico, em que tipo de mundo vamos viver (frio como o Polo Norte ou quente como o Congo). Esses parâmetros, que são os que mudam no mundo externo, nos dão a indicação de que tipo de memórias devemos ter (por exemplo, a foca se mata com arpão e o tigre com flecha). O exemplo mais precioso é o dos fonemas da linguagem humana. Todos nós nascemos com a capacidade de entender e de falar todos e qualquer dos idiomas humanos, mas à medida que passa o tempo, simplesmente nos especializamos e não ouvimos mais os fonemas de outras línguas (o menino que aprendeu a falar somente em japonês ou chinês, quando fica adulto não consegue mais ouvir a diferença entre o "L" e o "R" e dizem "maruco" em vez de "maluco").

S.A.S.: Já que falamos da linguagem, não crê o senhor que uma parte fundamental da consciência é o evidente "estilo narrativo" de sua estrutura? Até que ponto a peculiaridade do módulo lingüístico humano de gerar continuas inferências sobre os fatos participam na estrutura de nossa consciência?

R. Llinás: A linguagem muda somente aqueles aspectos de nossa consciência baseados em informação, mas não os sentimentos em si. As palavras são como pedras que podem causar ferimentos ou como carícias que acalmam e que nos orientam, mas o conteúdo da consciência é intrínseco. É como com um jogo de baralho: temos um número finito de cartas, mas podemos combiná-las e fazer um número infinito de jogadas com elas, mas o "ás de copas" será sempre um "ás de copas". Os valores não mudam, só o lugar onde os colocamos.

S.A.S.As teorias instintivas do linguagem do estilo de Chomsky's ou Pinker's se ajustam e contribuem para suas idéias?

R. Llinás: Chomsky é um bom amigo, e apesar disso, estou de acordo com muitas de seus idéias. Em particular a idéia de módulos funcionais no cérebro e sua pre-especificação genética ressoa muito com o que eu penso.

S.A.S.: O senhor recentemente escreveu um livro com Patricia Smith Churchland chamado "O continuo mente-cérebro". Não crê que de alguma maneira existe uma "remodelação" do Dualismo Cartesiano ao pensar estas questões em termos de relações mente-cérebro?

R. Llinás: O livro é uma coleção de artigos, mas o título "continuo mente-cérebro" foi sugerido por mim, porque todos os seus autores são monistas, como eu, até morrer.

S.A.S.: Como cabem as propriedades emergentes nesse panorama?

R. Llinás: Não apresentam nenhum problema. As propriedades emergentes são o que chamamos física. Os átomos se combinam e produzem a água, as células se combinam e produzem o cérebro.

S.A.S.: O senhor seguramente conhece os trabalhos de Daniel Dennett. Que opinião merecem os modelos de mente que este filósofo propõe?

R. De fato, eu o conheço bem e pessoalmente. Dennett é um enamorado da inteligência artificial me parece que o conteúdo de seus livros não merece os títulos que ele os deu. Se dizem para mim "Consciência Explicada",eu vou achar que em troca de uma certa quantia em dinheiro e algumas horas de leitura Dennett me dará uma explicação, mas o único que ele me diz é "porque não sei". Esse livro deveria chamar-se "A consciência não explicada" ou "Como cansar o público".

S.A.S.: Já que tocamos o tema da inteligência artificial: o senhor não acredita que o contato entre o cérebro humano e as computadores e os espaços virtuais gerados por eles estão modificando lentamente nossa consciência?

R Llinás: Definitivamente. A tal ponto que algumas pessoas preferem ver o jogo na televisão do que ir ao estádio. Com a realidade vrtual isso vai piorar, mas ao final a realidade real ganhará, pois uma comida virtual não é a mesma coisa que a real!.

S.A.S.: Como acredita o senhor que esta restruturação do "conceito de nós mesmos", que implica um maior conhecimento sobre os mecanismo de consciência, irá impactar em termos mais amplos as relações sociais, as estruturas políticas, etc.?

R. Llinás: Importantíssimo. Imagine se não tivéssemos uma alma, que não houvesse céu e inferno. Então, como apreciaríamos a vida e por que a respeitaríamos? No entanto, às vezes há gente que não a respeita, mesmo imaginando que há um "segundo capitulo" para a vida. Mas, e se ele não existe? Eu creio que seríamos melhores indivíduos; apreciaríamos mais a vida, a respeitaríamos mais. Este é o meu ponto de vista.

S.A.S.: E como conciliar o fato de que, ao menos no caso de Estados Unidos, todos esses avanços nos conceitos e conhecimentos filosófico-científicos sobre nosso cérebro e sobre a consciência são acompanhados por um importante auge das idéias místicas e religiosas na população em geral ?

R. Llinás: Me parece que o aumento do interesse pelas idéias místicas tem algo a ver com uma dicotomia entre os grupos instruídos e não instruídos. As pessoas instruídas tem menos desejos de soluções mágicas que as não instruídas. Mas a velocidade com que se está gerando o conhecimento é tal que resulta muito mais fácil esconder-se por trás de algo que solucione tudo, que ter que tratar de lutar com o conhecimento que tem crescido de modo incrível. Por isto, me parece que é um pouco de defesa social. Agora, não sei qual será o final deste movimento pendular. Tenho ouvido que o século XXI será religioso ou não... não sei.

S.A.S.: Ao menos em psiquiatria já se estão produzindo o que poderíamos chamar de "conseqüências do pensamento cartesiano na clínica". Por exemplo as pessoas que são submetidas ao tratamento por lítioi sofrem importantes rupturas subjetivas ao ter que conciliar o incrível efeito deste metal com seus paradigmas acerca de si mesmas. Isto não estaria sendo ajudado por um certo atraso ideológico por parte dos neurocientistas clínicos?

 R. Llinás: Sim, sobretudo em psiquiatria. Existem escolas muito poderosas em psiquiatria que não querem que ocorram mudanças. É uma lástima, porque muitas delas estão morrendo por essa falta de mudanças e a psiquiatria biológica esta aumentando de modo exponencial. Já está morrendo a psiquiatria com orientação psicoterapêutica, e creio que os que fazem psicoterapia às vezes não se dão conta que uma palavra é como uma injeção de um fármaco. O que há que fazer é traduzir os significados destas palavras e essas idéias em conceitos mais concretos de Neurociências.

S.A.S.: Por que o senhor pensa que temos que desenvolver mais o conhecimento neurocientífico nos países da América Latina?

R. Llinás: O futuro das relações humanas estará diretamente relacionado com a função cerebral. Por isto já é fundamental. No passado, e até hoje, alguns países da América do Sul têm tido uma grande história de neurofarmacologia, desde os tempos dos indígenas. É necessário nos lembrarmos de todas as drogas lícitas e ilícitas que se geraram em nosso continente e que atuam sobre o cérebro. Temos que nos lembrar das histórias incríveis com o café, o chocolate, etc. Por outra parte, as Neurociências não existem somente para entender a natureza do homem. Também cumprem uma função social, como no tratamento das doenças cerebrais ou ao ajudar-nos a ter uma vida mais agradável e construtiva. É uma coisa que se pode explorar bem.