SOROCABA / SP - terça-feira, 25 de julho de 2017

LINGUAGEM E COGNIÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DE UMA COGNIÇÃO MUSICAL

 

LINGUAGEM E COGNIÇÃO NA CONSTITUIÇÃO DE UMA COGNIÇÃO MUSICAL

(LANGUAGE AND COGNITION IN THE FORMATION OF A MUSICAL COGNITION)

Marcelo S. F. MELLO (Unicamp)

ABSTRACT:

view of their contents, the possible relationships between language and human cognition

can modify the influence of a "semiological" model of the linguistic contents in other

human manifestations, as the music - or its scientific, cognitive research, associated to the

name of musical cognition.

Enlarging the reach and the sense of a intersubjective, social and discursive

KEYWORDS:

music; cognition; language; brain; mind

As tradições teóricas e filosóficas a respeito das relações entre linguagem e

pensamento caracterizam-se comumente por uma cisão entre estes dois elementos,

principalmente desde a cisão filosófica entre o corpo (a realidade material) e a alma (o

pensamento, a racionalidade) proposta por DESCARTES. Uma noção de linguagem como

objeto, mecanismo de sentido racional e lógico a serviço de uma racionalidade individual

(de uma subjetividade), encontrável desde as formulações cartesianas, terá então, por sua

vez, fortes características racionalistas e formalistas (de um conjunto de regras ou um

código lógico e formal, irredutível e imbuído

(de uma concretude material e invariável, ou mesmo física, dada objetivamente na

natureza), ou naturalistas e inatistas (de uma organicidade “natural”, advinda de

propriedades biológicas do sistema nervoso e animal). Ora, estas características serão

condizentes não só com o método estruturalista — de estudo da linguagem como sistema de

oposições entre elementos distintos, que marca a formulação do estudo da linguagem, a

Lingüística, como ciência (SAUSSURE 1916) — mas também com os postulados da maior

parte das atuais pesquisas científicas (empiricistas) a respeito dos fundamentos da mente

humana, agrupáveis institucionalmente com o nome de Ciências Cognitivas, ou talvez de

forma mais adequada, em uma linha teórica geral comum imputável como cognitivismo.

A palavra "cognição" pode ser descrita num dicionário como o processo de

"aquisição do conhecimento"; seu uso nos meios científicos aparece associado mais

especificamente ao estudo de processos específicos da percepção e da atividade motora,

animais e humanas, e principalmente sua relação com o pensamento e a razão, ou com

"atividades mentais superiores". Ou seja, ao momento justamente em que a sensação física

(perceptual) e o pensamento abstrato podem se "transformar" ou se "transmitir" um ao

outro. Se os processos mentais superiores são acessíveis para descrição e explicação apenas

através de especulação filosófica, os processos perceptuais e motores apresentam um vasto

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campo objetivo e material para estudos científicos, empíricos, formais e precisos. A partir

desta fórmula simples, a proposição atual de respostas científicas (empíricas, materialistas) a

respeito da mente humana responde a origens históricas, epistemológicas e ideológicas

delimitáveis (DUPUY 1996); abarca na verdade questões fundamentais do conhecimento

humano; e, ao mesmo tempo, têm profundas controvérsias em sua própria conceituação.

Historicamente, ela deve ao "dualismo ontológico" oriundo do

logo existo")

toda a filosofia moderna), e posteriormente a longínquos posicionamentos de caráter

empiricista (Locke, Hume, Stuart Mill, etc. -- cf. HAMLYN 1995; FREITAS 1994); mais

recentemente, ao intrincado desenvolvimento teórico e tecnológico das ciências matemáticas

e mais especificamente computacionais durante o século XX, o que permite situar o

movimento cognitivista, em grande parte, como fruto de uma visão formalista, fisicalista,

logicista e mecanicista dos processos mentais, de uma mecanicidade da razão humana, a

partir de pesquisas como as de TURING, MCCULLOCH, VON NEWMAN etc. Trata-se

então de investigar portanto uma

problema filosófico da relação entre a alma e o corpo"

Haverá, porém, posições discordantes em relação a um papel meramente

instrumental, formal ou mecanicista dos fenômenos da linguagem, opondo, a uma estrutura

(um objeto) lógica e invariável, a noção de uma atividade

do dia-a-dia, um processo (entre sujeitos da linguagem) construído dentro de contextos

humanos, sociais e históricos. Se uma linguagem postulada como mecanicista e instrumental

é concordante com as abordagens materialistas e cientificistas da Ciências Cognitivas, a

noção da, linguagem como um processos intersubjetivo e contextual também pode

representar um paradigma de oposição aos preceitos teóricos das pesquisas cognitivistas.

Nessa situação, a linguagem não é mais necessariamente vista apenas como manifestação de

uma estrutura formal (da língua, do pensamento ou de processos cognitivos mais primários),

mas passa a ser valorada também como atividade, estruturada e estruturante destes

processos (a língua, o pensamento, processos cognitivos etc.). Para além de suas categorias

estruturais, para além de um sistema determinístico, a linguagem enquanto "atividade

constitutiva" dilui e amplia as fronteiras do lingüístico, definindo-o como um processo,

sempre intersubjetivo, entre indivíduos (ou sujeitos lingüísticos) específicos, mais do que

baseado em princípios invariáveis, sejam estruturais (ou sintáticos), sejam de referência a

"objetos" denotativos da realidade (aos quais se deva imputar um “valor-de-verdade”). Da

mesma forma, se pela separação entre sistema lingüístico (de funcionamento da

significação, abordável pela metodologia estruturalista) e suas manifestações, o método

estruturalista determina uma dicotomia essencial entre língua (estrutura formal) e fala

(manifestação humana, intersubjetiva), esta dicotomia perde sua força conceitual na medida

em que são valorizados elementos ligados às formas e processos lingüísticos dialógicos,

enunciativos ou ilocucionais, de questionamento das maneiras pelas quais é possível se

formar e se manter estes sujeitos lingüísticos enquanto tais, enquanto usuários de uma

língua, enquanto falantes válidos ou autorizados (o que abarca também suas condições de

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manifestação ou produção). Nesse movimento, onde podem ser acolhidos diversos pontos

de vista distintos dentro de disciplinas pertinentes aos estudos da linguagem (pragmática,

teorias enunciativas, discursivas etc.), cria-se uma posição essencialmente lingüística em

relação aos processos mentais. A partir deste ponto, cada uma das principais características

que as ciências cognitivas aplicam a seu objeto de estudo pode ser reconstruída.

Porém, para que possa ser alçada à condição de uma nova epistemologia, uma

abordagem intersubjetiva, interlocutiva, dos conteúdos e processos mentais, deve ter a

capacidade de abarcar questões interdisciplinares pertinentes, especialmente no tocante à

constituição de processos cognitivos. Tal é o caso, por exemplo, das estreitas relações

imputadas entre a linguagem e a música, entre os processos lingüísticos e as manifestações

musicais, que podem ser apresentadas entre os mais comuns axiomas dentro do

conhecimento humano. Por sua vez, as relações entre música e a cognição humana têm

suscitado uma miríade de trabalhos recentes nos mais diversos assuntos correlatos, que

podem ser reunidos sob o termo genérico de cognição musical, ou outros de igual valor.

Estudos sobre cognição musical constituem um ramo científico atual tão florescente quanto

a diversidade encontrada nas próprias ciências cognitivas, com vários estudos particulares e

"tratados" literários abrangentes, periódicos científicos especializados, centros de pesquisa

espalhados pelo mundo. De modo geral, para cada uma das grandes áreas de interesse (ou

das prerrogativas teóricas) de onde são enunciadas características cognitivas de nosso

comportamento, pode se encontrar aplicações já formalizadas no terreno da música. As

bases epistemológicas e inter-relacionáveis dentro das pesquisas em cognição musical, por

sua vez, foram o tema de minha recente dissertação de mestrado (MELLO 2003).

A Lingüística, como modelo interdisciplinar, tem de fato papel preponderante em

postulações teóricas e metodológicas atuais em várias áreas afins da cognição musical. É

através de uma perspectiva lingüística (estruturalista), portanto, que pode se vislumbrar já

uma primeira forma de introduzir a linguagem em suas relações com a música: como o

sistema semiológico por natureza, a linguagem verbal se impõe como modelo estrutural

(estruturalista?) para outras "linguagens", entre elas a musical, permitindo-lhes uma forma

anterior de conceituação e de funcionamento (como em BENVENISTE 1966). Nesse caso, a

música assemelhar-se-ia ou "aspiraria" a um sistema semiológico ou mesmo estruturalista,

ou seja, um sistema auto-referente onde as regras de inter-relação entre seus elementos se

mostrem nítidas ou ao menos imbuídas de sentido, de validade pela simples oposição que

estes elementos fazem entre si, como nas prerrogativas estruturalistas. Uma proposta como

esta pode ser considerada como disseminada em todas as possíveis áreas de atuação de uma

cognição musical: epistemologia (SEEGER 1977), análise musical (LERDAHL,

JACKENDOFF 1981), neuromusicologia em suas diversas formulações (DALLA BELLA,

PERETZ 1999; BESSON KUTAS 1997 etc.), inteligência artificial aplicada à música

(SMOLIAR 1980) teorias de desenvolvimento humano e infantil (VANEECHOUTTE,

SKOYLES 1998) etc. Cria-se aqui, portanto, uma situação de interdisciplinaridade, no

sentido clássico, entre modelos lingüísticos e sua aplicação em conteúdos cognitivos em

música.

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Ocorre que uma tal “interdisciplinaridade” restrita entre objetos do conhecimento

mantém uma condição de instrumentalidade funcional, de “comparação de fins

adequadamente atingidos”, tanto no campo da linguagem como principalmente no campo da

música, identificada dentro dos paradigmas formais estipulados em nossos meios sociais.

Isto é, a cognição musical será prescrita a partir das características presentes na música

“normal” que conhecemos, dos padrões musicais estabelecidos socialmente, de uma idéia

(idealização) pré-formada dos conteúdos musicais. Mais que isto, esta “idéia” do que seja o

musical é apresentada como possuidora de um caráter universal, racional e causal, uma vez

que determinada por princípios cognitivos, ou em última instância científicos (empíricos,

racionalistas). Se é estipulada uma necessidade "causal" entre a percepção musical e seus

objetos, esta causalidade não parece fornecer dados novos nem para uma livre interpolação

entre música e musicalidade (entre elementos musicais e seus efeitos psicológicos), nem

para uma relação contingente com a linguagem e a Lingüística, para além de uma mera

instrumentalidade. E as perguntas de fundo epistemológico permanecem sem resposta neste

caso: o musical é definível a partir das propriedades das manifestações reais da música? A

música, é definível a partir de propriedades declaráveis do musical? Ou, dentro da relação

entre música e linguagem:

a priori de sentido), mecanicistas e fisicalistas"cogito ergo sum" ("pensode DESCARTES (identificável com o princípio do método científico atual e de"resposta científica, portanto materialista, ao velho(mais uma vez DUPUY 1996).”linguageira” (AUROUX 1994)

"A música é uma linguagem? [...] Ou se estrutura como uma linguagem? De que

material ela se constitui? A 'linguagem do som' [musical] e a 'linguagem falada'

têm uma mesma natureza? [... Haveria então] uma espécie de 'poder' ou

'ingerência' da música na linguagem falada? Ou será que a expressão 'linguagem

musical' seria mais uma espécie de metáfora? Se ela existe, qual o seu lugar na

semiologia?"

Assim, deverá apresentar conseqüências profundas, para a cognição musical, a

afirmação da possibilidade de uma nova epistemologia, uma nova teoria do conhecimento,

intersubjetiva e de interconstituição entre a linguagem (as práticas lingüísticas) e a cognição,

ou entre estas e o ambiente (contextual) que os cercam. Os objetos (ou as manifestações

musicais) passam a não ser mais definíveis simplesmente a partir de um mecanismo causal,

cognitivo, lógico (ou simplesmente sonoro, auditivo). Eles corresponderão a um processo de

identificação, valoração e interpretação subjetiva (por sujeitos) de objetos passíveis de

serem considerados como musicais, portadores de uma mensagem musical. É um paradigma

epistemologicamente bastante diverso da causalidade explicativa buscada nas perspectivas

cognitivistas: a ênfase deixa de ser dada no objeto musical, e volta-se ao sujeito; um

mecanismo objetivo de percepção passa a ser tomado como um processo de interpretação, e

a música deixa de ser uma questão essencialmente de estrutura, e passa a se relacionar

meramente com uma posição definida. Ou seja, as instâncias musicais podem passar a ser

consideradas como normas de funcionamento de um determinado discurso (de uma

determinada formação ideológica), e as manifestações musicais, como adequações

subjetivas, ou subjetivadas, de construção de "lugares" possíveis de sua percepção - os

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sujeitos musicais. A cognição musical, finalmente, pode ser apresentada para além de uma

descrição de delimitações empíricas dos objetos (dos fenômenos) musicais, como

testemunhas de particularidades processuais de eventos de formação de uma subjetividade

musical. Ou seja, não uma cognição da música, mas a cognição de um discurso musical, de

um discurso da música.

O estudo de um discurso em música pode se ampliar de um discurso das "estruturas

musicais", para tomar como pertinentes todas as formas de inter-relação entre um fazer

musical (um falar de música, uma experiência musical etc.) e uma constituição imaginária

do signo musical, ou do objeto musical. No peso valorativo (constitutivo) dos termos e das

proposições envolvidas nesta relação, em todas as instâncias nas quais é possível determinar

os indivíduos responsáveis pelo ato musical (quem ou o quê faz música; para quem; onde;

quando; quais são os pré-requisitos para que se tenha uma música; questões de valor e

julgamento estético etc.). No próprio caráter técnico-retórico, presente nas formulações de

uma “metáfora” musical existente entre suas manifestações e sua delimitação teóricofuncional.

Na tendência (diria-se tão "universal" quanto as próprias manifestações musicais)

de imposição social, ideológica, dos sistemas musicais, como sistemas naturais, dotados de

propriedades "inefáveis", além (ou aquém) de qualquer formulação ou indicação material

(concreta), "implícitos", "metafóricos", identificados com uma Música "ela-mesma". E

também na possibilidade de estudos delimitados, de "campos discursivos"

(MAINGUENEAU 1984) específicos, dentro de um período histórico (ex. o sistema musical

chinês; o canto gregoriano; o sistema tonal em vária acepções), de uma sociedade ou de uma

relação social (política) (ex. a teoria musical como um processo de constituição de uma

classe social, os músicos, ou mesmo como ritual iniciatório, mitológico; os processos de

culturalização, produção e consumo dos objetos musicais).

É claro, a incipiência de abordagens com estas é tão clara quanto a da própria

construção de uma tal “nova epistemologia”, um modelo intersubjetivo para as relações de

fulcro entre linguagem e cognição. O caso aqui é apenas o de apontar para a grande questão

da subjetividade musical, das várias formas de limite entre a música e a não-música, como

ponto central no desenvolvimento futuro dentro da cognição musical. E também o de

encarar estes dados como evidências específicas e locais, delimitadas, no processo de

contínua construção do conhecimento humano (e musical), levando a novas fronteiras

possíveis, a novas formas possíveis, a novas cognições possíveis; seria possível, afinal, dar a

"'última palavra" científica sobre música, determinar de uma vez por todas as possíveis

estruturas, as possíveis seqüências, as possíveis atividades musicais? E quanto às

lingüísticas, ou às cognitivas?

RESUMO: Ampliando o alcance e o sentido de uma visão intersubjetiva, social e discursiva

de seus conteúdos, as possíveis relações de inter-constitutividade entre a linguagem e a

cognição humanas podem modificar o papel de “modelo semiológico” dos conteúdos

lingüísticos frente a outras manifestações humanas, como a música — ou sua formulação

científica, cognitiva, associada ao nome de cognição musical.

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PALAVRAS-CHAVE: música ; cognição ; linguagem ; cérebro ; mente

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